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01 March 2014

oscar 2014


Não sem algum constrangimento, o autor do blog deve admitir que, até agora, assistiu a apenas metade dos concorrentes a melhor filme na premiação do Oscar. Eis algumas breves impressões:


american hustle (2013)

O título em português (Trapaça) diz muito sobre o filme de David O. Russell. Os personagens centrais são falsários, e o próprio O. Russell - com seus planos-sequência em steadycam e sua narração over, com sua montagem não linear e seus protagonistas levados a situações-limite - parece um mero copiador de Scorsese. Este último, em O lobo de Wall Street, também trabalha com o pastiche (um nome mais polido para o estilo de O. Russell), mas sua matriz são, entre outras, as imagens publicitárias associadas ao sucesso.

As 10 indicações ao Oscar (com todos os defeitos e idiossincrasias do prêmio) demonstram que O. Russell - um diretor irregular, que teve talvez seu maior momento com (O lutador, ) - tornou-se uma espécie de "queridinho" da indústria norte-americana. O final redentor de Trapaça, com direito a uma "segunda chance" para os protagonistas, reduz o já fraco impacto do filme. Resta a brilhante performance de Jennifer Lawrence... Parafraseando a Norma Desmond de Sunset Boulevard, "Lawrence é grande; o filme é que é pequeno".

Aqui, o texto de José Geraldo Couto sobre Trapaça.


gravity (2013)

O único concorrente a melhor filme com texto publicado no retrovisor.


her (2013)

Os filmes de Spike Jonze geralmente trazem boas ideias. Ela foi elogiado pelos motivos corretos: consegue se aproximar de uma questão da sensibilidade contemporânea, as relações humanas a partir das recentes mudanças tecnológicas. Mas Jonze faz um cinema ora um tanto asséptico, ora um tanto acadêmico, que aposta em um investimento afetivo do público. Até aí, metade do cinema clássico depende do investimento afetivo do público... mas Jonze parece não fazer sua parte e oferece um filme "frio".

Os atores, novamente, excepcionais (sem eles, a frieza seria completa): Joaquim Phoenix e Scarlett Johansson (que consegue, apenas com a voz, criar a personalidade do sistema operacional pelo qual o protagonista se apaixona).

Aqui, o texto de José Geraldo Couto.

Aqui, uma crônica de Contardo Calligaris sobre o filme.


nebraska (2013)

O rosto silencioso de Bruce Dern possui inúmeras sutilezas. Ele escorrega do alheamento à revolta contida; da dúvida à ironia; da consciência da morte à embriaguez. Nebraska tem muitas qualidades: road movie entre pai e filho, retorno à cidade natal e ao passado, relações familiares tensionadas. Um filme também sobre a América em crise, com pessoas desempregadas (ou ameaçadas pelo desemprego), passando seu tempo em bares ou em casa, em frente à televisão. Pequenos negócios falidos, fazendas que parecem sempre inativas, a esperança de que um golpe de sorte mude tudo para melhor. Uma esperança tola, que não leva a lugar nenhum.

Mas Alexander Payne (e o roteiro de Bob Nelson) conseguem por tudo a perder: o final é uma espécie de celebração do consumo, uma vingança através do acúmulo material. A felicidade ao alcance de alguns (milhares) de dólares. O cartão de crédito como deus ex machina.

Aqui, o texto de José Geraldo Couto.


the wolf of wall street (2013)

As recepções ao novo filme de Martin Scorsese parecem contraditórias e extremadas. Scorsese faz uma ode ao excesso. O apetite do cineasta por novas imagens para serem "devoradas" é semelhante ao apetite de seu protagonista para acumular dinheiro. Os vídeos de publicidade, o falso documentário de autopromoção, o depoimento em primeira pessoa... Tudo é fagocitado por Scorsese, em um filme que se torna quase monstruoso: longo, cheio de arestas, mas extremamente interessante. Thelma Schoonmaker não receber sequer uma indicação por melhor montagem prova a cegueira da Academy of Motion Picture Arts and Sciences. O filme de Scorsese é ambicioso e quase não cabe em si. É excessivo e exagerado como seu protagonista, é veloz e sem hesitações como uma viagem de montanha-russa ou um filme publicitário de 30 segundos, que dá seu recado sem ter tempo a perder... E o grande tema que sustenta O lobo de Wall Street talvez seja, exatamente, o tempo... O tempo recorde para ganhar (e perder) dinheiro; o tempo automático das transações financeiras na era da fantasmagoria econômica; a necessidade de cumprir um deadline (apenas negócios); o tempo acelerado da fala de DiCaprio; o tempo alterado das drogas. O tempo, a única coisa que o dinheiro (ainda) não pode comprar...

Aqui, o texto de José Geraldo Couto.


A cerimônia de entrega dos Oscars acontece no próximo domingo, 2 de março de 2014. Que vençam os melhores! (Acontecimento extremamente raro, em se tratando do Oscar.)

A imagem que ilustra este texto mostra Sacheen Littlefeather, indígena da tribo apache que, na cerimônia do Oscar de 1973, comunicou a um auditório perplexo a decisão do ator Marlon Brando em não aceitar o prêmio, concedido por sua interpretação de Vito Corleone em O poderoso chefão. Brando chamava a atenção da indústria cinematográfica para a maneira como os indígenas eram tratados e retratados, na sociedade como um todo e no cinema em particular.



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